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SAÚDE E BEM ESTAR

Embalagens plásticas fazem mal a saúde

Pesquisadora conta como substâncias presentes nesse material podem afetar nosso corpo e o que podemos fazer para minimizar os riscos

28/12/2019 18h23Atualizado há 3 semanas
Por: Rafael Oliveira
Fonte: Revista Saúde
Foto: Alex Silva/A2 Estúdio
Foto: Alex Silva/A2 Estúdio

Para a nutricionista Andreia Friques, presidente da Associação Brasileira de Nutrição Materno-Infantil, a produção, o consumo e o descarte de plásticos hoje representam mais do que um problema ambiental. Trata-se de um desafio de saúde pública. Isso porque uma parcela considerável do material que circula por aí carrega e dispersa bisfenol A (BPA) e outros contaminantes capazes de bagunçar o corpo humano.

Segundo ela, já existem evidências significativas de que eles estejam contribuindo para o aumento nos casos de obesidade, puberdade precoce e outros distúrbios hormonais, além de alguns tipos de câncer.

A pesquisadora, que acaba de concluir seu doutorado pela Universidade Federal do Espírito Santo, investigou o impacto nocivo do tal BPA no sistema cardiovascular e mergulhou na literatura científica para entender até que ponto moléculas presentes nos plásticos comprometem nossas células.

Suas descobertas e angústias são divididas no livro Epidemia do Plástico, em que, misturando conceitos, dados e avaliações técnicas com alguns conselhos práticos, ela busca pintar um retrato atual do que sabemos sobre os efeitos de bisfenol A e companhia ilimitada no bem-estar humano e do planeta.

Na obra, Andreia explora as potenciais repercussões da exposição contínua e em doses baixas a esses elementos — algo que acontece quando consumimos alimentos embalados em plásticos e latas, manuseamos papel térmico (esse das notas fiscais) e até entramos no carro em um dia de sol. Em todas essas situações, estaríamos expostos aos contaminantes ambientais.

Para contornar esses riscos, a nutricionista não prega uma solução radical. Afinal, no nosso dia a dia há plástico por todos os lados. Mas ensina maneiras de minimizar a exposição — pelo nosso bem e o da família. Confira a entrevista a seguir:

De onde veio a ideia de investigar o impacto dos plásticos em nossa saúde?

Comecei a despertar para a questão dos contaminantes ambientais ao iniciar meu trabalho de doutorado. Já estava estudando a influência do ambiente no corpo humano e o papel dos disruptores endócrinos, essas substâncias capazes de alterar nossos hormônios, como o bisfenol A (BPA). No doutorado tive a oportunidade de levar uma pergunta que eu queria responder. E eu vinha observando no consultório um aumento da obesidade, do número de meninas que menstruavam mais cedo… Isso vinha me inquietando.

Como os efeitos do BPA do ponto de vista hormonal já estavam bem esgotados, decidi investigar algo além e com o qual já tinha trabalhado em meu mestrado, o sistema cardiovascular. E, na pesquisa, descobrimos que o BPA também traz danos cardiovasculares. Além disso, fui motivada pela própria maternidade. Me indagava: como será o futuro dos nossos filhos e netos? E a partir daí passei a estudar mais, ler mais artigos…

Pelas evidências científicas atuais, podemos dizer que há uma relação de causa e efeito entre a exposição ao bisfenol A e problemas de saúde?

De forma geral, podemos dizer que sim. Existe essa relação. Estudos mostram, por exemplo, uma associação direta entre níveis elevados de BPA na urina de mães que tiveram filhos mais obesos. Além de dados extraídos da população, existem evidências de experimentos em laboratório. Quando eu contamino um rato com BPA, ele tende a ficar hipertenso e desenvolver doença cardiovascular. Daí a gente estabelece uma relação de causa e efeito.

Agora, dá pra extrapolar esses dados para os seres humanos? Em muitos casos, sim. Na minha pesquisa, por exemplo, mostramos que a contaminação leva a danos cardiovasculares potencialmente em humanos. O ponto é quanto isso vai impactar o organismo de uma pessoa, o que será diferente de uma para outra. Pessoas com mais adiposidade [gordura corporal] tendem a acumular mais bisfenol. Mas o que se percebe de maneira geral é que todos nós, querendo ou não, estamos expostos nesse mundo em que vivemos.

Existe um período crítico em que o ser humano está mais suscetível a esses efeitos nocivos?

Sim, os estudos e artigos mostram que há um período crítico no desenvolvimento humano para essa exposição. São os primeiros 1 100 dias da criança, que compreendem da fecundação até os 2 anos de idade. É que tudo que acontece nesse período pode determinar a saúde para o resto da vida. Além disso, estamos vendo um aumento nos casos de infertilidade e observando que os disruptores endócrinos também agem tanto no aparelho reprodutor masculino como no feminino. Muito provavelmente eles estão relacionados a esses índices alarmantes de infertilidade, que vêm aumentando nas últimas décadas.

E devemos lembrar que a população não está só exposta ao bisfenol A, mas também a outros contaminantes, como o glifosato usado nas lavouras, o parabeno das maquiagens… Temos contato com várias dessas substâncias, todos os dias, em pequenas doses, que são cumulativas. E elas têm um efeito ainda maior nesses casais que querem engravidar e nessa fase dos 1100 dias da criança.

Link da Fonte: https://saude.abril.com.br/familia/precisamos-repensar-o-uso-do-plastico-pela-nossa-saude/

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